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Esse blog tem intuito de difundir o batuque do Rio Grande do Sul. A base do blog é as pesquisar feitas por seu fundador, Rodrigo Heck. Cujo é Babalorixá da nação de Cabinda, e também cacique de Umbanda e Quimbandeiro. Os textos aqui publicados têm referencias bibliográficas de livros, internet e textos obtidos nos fóruns que o autor participa. Esse blog é aberto à discussão, e pedimos a colaboração de todos os amigos que visitarem que deixem seus comentários, sugestões e criticas, para que possamos melhor a cada dia nosso trabalho.

Jogo de búzios e cartas com hora marcada

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domingo, 16 de agosto de 2015





TEM QUE SABER INICIAR, TEM QUE SABER TERMINAR”: O DESFAZER NO BATUQUE GAÚCHO.


Cauê Fraga Machado1



Resumo: A partir do caso etnográfico da nação Oyó/RS, discuto a noção de desfazer no batuque gaúcho. Com a descrição do ritual do eru (desligamento), proponho que se tome o ritual em si como importante para pensar as práticas que compõem o processo de fazer o santo e a pessoa, e as noções de vida e de morte nas diferentes religiões de matriz africana. Eru não é um passo ritual para o culto aos eguns (mortos), mas ele mesmo trata da duração de uma pessoa, que é feita aos poucos, desfeita no ritual e refeita noutro mundo, onde passará a ter uma qualidade diferente de relação com os orixás.

Palavras-Chave: Desfazer; Batuque Gaúcho; Morte; Rito Fúnebre.




“KNOWING HOW TO BEGINNING, KNOWING
HOW TO FINISH”: THE UNDOING  IN THE BATUQUE GAUCHO (AN AFRO-RELIGION).

Abstract: From the ethnographic case of the nation Oyo in Rio Grande do Sul/ Brasil, I discuss the notion of undoing in the batuque gaucho (an afro-religion). With the description of the ritual of the eru (delinking), I propose to take the ritual itself as important to think about the practices that make up the process of do an orisha and a person, and the notions of life and death in different afro- religions. Eru is not just a ritual step in eguns (dead people) worship. Instead, it is regarded to one´s endurance. In this way, a person is done gradually, undone in this particular ritual and redone in a posthumous world, where they will gain a different quality of relationship with orishas.

Keywords: Undoing; Batuque Gaucho; Death; Funeral Rite.




1    Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.





INTRODUÇÃO2


Este artigo, de caráter etnográfico, consiste em uma descrição daquilo que ouvi e vi sobre a morte e os diferentes rituais a ela ligados no batuque de Oyó. À exceção do trabalho de Norton Corrêa (2006) que dedica a segunda parte de seu livro, O batuque no Rio Grande do Sul, aos mortos, o encontramos trabalhos sobre o batuque gaúcho que tenham se debruçado  sobre o tema. Autores como Melville J. Herskovits (1943) e Roger Bastide3 (1985) tangen- ciam a temática à luz de suas experiências etnográficas com o candomblé baiano4. Esses autores discorrem sobre a relação dos adeptos com os eguns, os espíritos ou almas dos mortos, ressaltando aquilo que o fora encontrado no Rio Grande do Sul como as sociedades de eguns encontradas na África e na Ilha de Itaparica/BA. A descrição que será oferecida vai ao encontro













2    As expressões nativas virão entre aspas, as palavras em ioruba e os conceitos em português que diferem do uso corrente da língua serão grafadas sem ênfases, seguidas de notas explicativas, ou com sua definição entre parênteses.
3    Bastide (1978) faz uma primeira síntese de rituais fúnebres no candomblé baiano, em tom mais descritivo, próximo ao pretendido neste artigo. Contudo, devo frisar, aqui importa o desfazer em si e não sua descrição para construir interpretações sobre a relação entre vivos e mortos. De acordo com meus informantes, esse momento é decisivo para os pais e mães de santo demonstrarem  seu saber sobre o fundamento religioso (o que será tratado adiante).
4    Vale lembrar as preocupações de Herskovits com a construção de escalas, ou seja, aquilo que teria guardado mais ou menos da África no Novo Mundo. em Bastide (1985) encontramos o candomblé baiano como a mais africana das praticas religiosas no Brasil. Seu modelo seria, mais tarde, criticado como sendo nagocêntrico. Além disso, notemos que ambos os autores realizaram curtas incursões etnográficas no Rio Grande do Sul Corrêa (2006) apontara tal questão.





da de Corrêa (2006; 1998)5 em muitos pontos. Entretanto, as linhas que seguem exploram um lado da religião que a produção antropológica o se preocupou ou deixou em segundo plano, o desfazer.
Desfazer é o complexo de práticas relacionadas com a morte e os rituais que ela implica, que o devem ser negligenciados, mas antes tomados como o importantes quanto as práticas  que compõem o processo de fazer o santo e a pessoa. Fazer, ligar (fazer laços), assentar, firmar o santo e acumular obrigações6  culminarão no desfazer. A noção será utilizada neste artigo para agrupar outros conceitos como desligar, embalar, quebrar, destruir e terminar. Desfazer, portanto, será considerado em sua importância ritual, para desligar na terra, para construir alhures, e não como a descrição de um culto ou anti-culto aos mortos. No batuque de Oyó, veremos esses conceitos





5    Corrêa (1998) apresenta a relação entre vivos e mortos e deuses e mortos, com ênfase nos conflitos envolvidos. Enfatiza o caráter liminar da identidade dos eguns, o aspecto transformativo que o aressum (missa dos mortos) representa para a alma da pessoa, que se transforma  em egum. Esse é, portanto, considerado um rito de passagem e um anti-ritual. Os eguns, diferente do que acontece no lado de Oyó, podem incorporar em corpos humanos. Além do mais, o aressum deve ocorrer todos os anos para que os eguns não saiam de sua morada, o balé, para perturbar os vivos (ver Corrêa, 2006, p.
168-172; 1998, p. 93-102). Em sua tese de doutorado, o autor acrescenta que o egum exerce papel duplo, promovendo ordem e caos nos rituais, sendo assim considerado um anti-homem e um anti-deus, com comportamento anti-social (cf. Corrêa, 1998, p. 102). Para uma crítica ao conceito de rito de passagem e a sua simplificação ante a complexidade ritual, que não promove uma ruptura definitiva”, mas uma repetição contínua com exigência de cuidados cotidianos, ver Barbosa Neto (2012, p. 295-298).
6    O conceito nativo de obrigação engloba o que tendemos a traduzir por objetos rituais, por algumas ações e pelos próprios orixás em seus assentamentos.  Obrigação designa o fazer e o cuidar, mas também aquilo que fica guardado  sobre as prateleiras, atrás das cortinas, em sopeiras e manteigueiras. São as ferramentas e armas dos orixás, como a chave e a foice do Bará. São, também, os próprios ocutás (pedras/assentamentos). E, ainda, momentos, como os cortes (matanças), festas e outros eventos. Ouvimos falar do tempo em que fizeram sua obrigação, ou “[...] na obrigação da minha e vai ori (banha de carneiro)”. Obrigação corresponde, também, ao cuidado cada vez mais obrigatório que se passa a ter com os orixás, de acordo com a escala na hierarquia religiosa.





a partir de uma série de rituais que desligarão o morto dos vivos e vice-versa, sendo o mais importante deles o eru.
Proponho que se tome o desfazer como lugar privilegiado para alargar o conhecimento antropológico sobre as noções de alma (relacionada ao conceito de egum), corpo e pessoa (geralmente estudadas a partir da feitura), e de vida e morte, como ficará claro ao longo do artigo. Não se trata de uma postura que vá de encontro aos estudos sobre feitura e construção de pessoas e corpos nas religiões afro-brasileiras. Nelas encontramos importantes contri- buições, como as de Anjos (1995),  e a ideia do apronte (do fazer o chão)como metáfora recíproca com o nascimento biológico, e as de Goldman (1984), para o qual a pessoa construída  ritualmente no candomblé é folheada, composta por múltiplos componentes que entram em equilíbrio após vinte e um anos de iniciação, momento quando se atinge o tata (quando a pessoa possui domínio sobre eguns e vodunisis e uma não-submissão aos orixás). Essa realidade múltipla e folheada que parece dar lugar a um ser Uno e indiviso, na verdade, nunca se realiza, pois somente os orixás são os seres verdadeiramente  unitários. Por isso, tem-se uma pessoa descontínua em constante busca pelo equilíbrio. O que o desfazer evidenciará não é apenas uma concepção outra de pessoa, mas que as porções que a compuseram ao longo da vida se destacam umas das outras, recebendo diferentes destinos com o eru.
Os dados são provenientes de meu trabalho de campo em uma casa do lado7 de Oyó, em Gravataí/RS, presidida pelo pai de santo Odacir do Ogum. A nação é composta pelos descendentes no santo de Mãe Emília da Oyá Ladjá princesa africana que iniciou esse lado no Rio Grande do

7    O batuque é uma religião brasileira de matriz africana que cultua doze orixás e é praticada, principalmente, no Rio Grande do Sul. Essa religião é dividida em “lados (ou nações): Jêje, Ijexá, Cabinda, Nagô, O e Maçambique, “[...] cada lado corresponde, teoricamente, a formas rituais diversas (Cf. Corrêa, 2006, p. 50). Oro (1999) vem estu- dando a transnacionalização dessa religião para a Região Platina. relatos de casas de batuque abertas no estado de Santa Catarina, também. Sobre Oyó, Oro (2002) aponta para o escasso conhecimento sobre a nação. O único trabalho dedicado a essa nação é a dissertação de mestrado de Jacqueline Pólvora (1994). Para maiores informações sobre as diferentes nações e modalidades de culto, ver Oro (1994; 2002) e Corrêa (1994).





Sul. As pessoas com as quais me relacionei em campo dizem que Oyó é um lado puro, ou seja, distingue-se das outras nações pela exclusividade de culto aos orixás, deixando fora do campo de culto exus e pombagiras, caboclos e caboclas, pretos e pretas velhas e cosminhos e cosminhas, além dos eguns. Daí que os ritos fúnebres se dedicam às obrigações últimas aos orixás daquele que partiu. É através de obrigações aos orixás e ao próprio morto (ou egum) que se desfazem as obrigações e se quebram os laços religiosos e afetivos.
no dia da morte de algum parente de santo se deve apagar luzes e velas do quarto de santo, deixando-o escuro, em sinal de luto. Além disso, as obrigações  devem ser arriadas. No enterro, axexes (rezas de egum) são tirados. No sétimo dia, além da missa católica8, ocorrerá o eru momento mais importante no pós-morte. É nessa hora em que humanos e orixás devem quebrar seus laços com o orixá de quem morreu e com egum9.O próprio morto também deve aprender que não faz mais parte do nosso mundo e deve se desligar dos humanos e orixás que permanecem aqui, vivos. Passo agora à descrição de práticas e rituais que sucedem a morte e que, paulatinamente, desfazem na Terra o que será refeito em Orum (espécie de correlato do paraíso cristão; local onde os orixás vivem).



LUTO


É justamente nos sete dias que sucedem a morte de um batuqueiro que as Nanãs10 aparecem. Nanã é a dona da vida, da morte e dos espíritos.


8    Corrêa (2006, p. 159) fala sobre a missa católica como parte do ritual fúnebre dos batuques.
9    O que está próximo da descrição de Bastide em seu texto o mundo dos candomblés é de que a pessoa africana, assim como a dos candomblés, o nasce de uma vez , tampouco morre assim. Pela iniciação fez-se o espírito passar para um corpo vivo; trata-se agora de desfazer o que foi feito, recuando aos poucos, o que é um procedimento habitual na magia, o processo de inversão, refazer em sentido contrário o que foi feito, desfazer o dado (1978, p. 288).
10  Nanã Burukê é a dona do barro, lugar do qual todos viemos e para o qual voltaremos, despachados na kalunga.





Acontece que se morre de várias formas e ao morrer pode-se perder uma parte do corpo, como um braço ou uma perna, ou ficar deformado. É Nanã Burukê quem juntará as partes e quem consertará os estragos, juntando os caquinhos. Nanã Anarauim está sempre correndo, passa e não para. Nanã Anansurê passa, para e olha, mas vê que aquilo não é para ela. Nanã Burukê é a que para, recolhe as partes do corpo e leva para algum lugarzinho na praia pedras, mata, beira de mar ou rio e fica esperando  o que a “lei manda”. Se nesse tempo, tudo (rituais e oferendas) for feito direitinho, ela irá juntar os pedaços para reconstruir e levar o egum para perto do seu orixá de cabeça. Diz-se que a cada ritual realizado a pessoa, agora egum, vai se aproximando mais e mais de seu orixá. Nanã vai levando o egum ou alma11 para perto dele. Pois o final de todos aqueles que são de religião é aos pés de seu orixá12.
* * *

As pessoas com quem conversei me contaram que batuqueiro tem de ser enterrado, nunca cremado. O caixão deve ser embalado (para frente e para trás). Somente homens prontos podem segurar as alças do caixão.


11  Em meu campo, alma é equivalente à pessoa sem a sua parte corpo. O corpo é algo a ser ocupado, seja por essa parcela da pessoa, seja por um orixá inteiro, seja pela metade orixá/metade pessoa os axeres. Pessoa é o resultado da soma das parcelas alma e corpo, e também seu orixá esse não como parcela. Aqui, talvez, a evidência de que as opera- ções de adição e subtração talvez sejam metáforas deficientes. Contudo, são capazes de, por meio de simplificações, dar inteligibilidade a conceitos formulados com tamanha complexidade pelos batuqueiros. Alma, corpo e orixá se tornam espécies de parcelas da soma total, que se separam. Orixá fica em Orum (mundo dos orixás). A alma agora egum deve ir para Orum, também. E o corpo fica debaixo da terra, vazio. O egum, alma sem corpo, é, portanto, perigoso, pois que desejoso de outros (novos) corpos para ocupar. Por isso, o eru não apenas desligará os vivos daquele que morreu, mas ensinará o egum que ele não pertence mais a este mundo, como mencionado. Sobre os perigos dos eguns, ver Corrêa (2006, p. 174).
12  Para uma descrição alternativa dos velórios entre os batuqueiros, ver Corrêa (2006, p. 136-139). Note-se que o autor realizou etnografia no tempo em que se velavam os mortos no salão das casas de religião, daí uma serie de diferentes rituais. É ao redor do corpo velado que a roda de eguns acontece (Corrêa, 2006, p. 157).





Com agê (instrumento feito com uma cabaça/porongo inteira trançada com cordão e contas/miçangas de diferentes  cores), os axexes (rezas de egum) são entoados durante o percurso, que vai da capela do cemitério até a cova. O enterro é apenas uma parte da despedida. Nele deve-se ir com a guia do orixá de corpo (no batuque, ao invés de enredo, se tem um orixá dono da cabeça, que casa com outro que será o dono do corpo) tal, leva-se cinza – para afastar os eguns– e um pedaço de morim (tipo de tecido) branco para abanar o que de ruim e se despedir do morto13. Contam com a simpatia ou antipatia do padre responsável pela paróquia do cemitério. No enterro de Tia Lourdinha do Ogum, em julho de 2011, contaram com a boa vontade do padre. A descrição feita pelos presentes foi a de um ritual triste e belo ao mesmo tempo. Após o sermão do padre, colocaram a música  Jorge de Capadócia14”, de Jorge Ben, para homenagear a filha de Ogum que estava deixando a terra.
Como venho demonstrando, a morte é motivo de luto e isso implica em várias prescrições. Durante sete dias que seguem a morte, não se acende velas nem luzes no quarto de santo. Além disso, os serviços/feitiços devem cessar. Apenas após o ritual de desligamento, aos poucos, as atividades da casa voltam ao seu normal. No oitavo dia se acende apenas velas. Aos poucos



13  Sem entrar em controvérsias sobre a existência ou não de sincretismo, ou com relação às suas muitas formas, posso afirmar que, nas casas de Oyó por onde passei, São Jorge é Ogum em formato de imagem. O contrário não é valido, Ogum não é São Jorge. Os chamados santos africanos, ou as imagens tridimensionais de orixás, são novidades nem sempre bem-vindas. Afora isso, não se cogita uma eliminação das estatuetas católicas(utilizo aspas, já que os batuqueiros o as chamam de católicas), pois grande parte delas “[...] come tanto tempo [...]”. As imagens antigas concentram, portanto, grande quantidade de axé. É nesse sentido que ser africano, para o povo de Oyó, é seguir o que os mais antigos lhes ensinaram, por isso é que não necessidade de africanizar ou reafricanizar práticas, como certa vez comentou Odacir, em relação a se guardar a quaresma: “[...] não somos africanos da gema (entende?), somos afro-brasileiros. Se as nega velha guardavam a quaresma quem sou eu para questionar, para mudar, ou pensar que africanizarei qualquer coisa. Nossa tradição é a do batuque de Oyó já no Brasil”.
14  Leve é um conceito êmico e tem principalmente, mas não somente, a ver com serviços/
feitiços envolvendo matança de animais, ou os chamados serviços de dano”.





se pode começar a trabalhar, mas com serviços “leves15. Três meses após a morte, mata-se para Bará (orixá que é dono dos caminhos, o princípio de tudo e para o qual se deve prestar homenagens em primeiro lugar. Dizem que sem Bará não acontece nada”) e pede-se autorização para fazer serviços mais pesados, o que o orixá pode ou não conceder.
Diferente do que acontece nos períodos em que não se está de luto, não se deve cumprimentar o quarto de santo, nem bater cabeça. Apenas beijos, abraços e o beija-mão é importante notar que ao beijar as mãos de alguém, estamos cumprimentando, beijando as mãos de seu orixá de cabeça. O tempo de luto varia com a hierarquia do falecido na religião: aos babalaus (ou babalaoas – modo como também são chamados os pais e mães de santo, respectivamente), com casa aberta16, guarda-se um ano; aos prontos17, mas sem os santos em casa, seis meses; àqueles com borido18, três












15  Aqueles que possuem os axés de faca (para poder cortar animais) e de búzios (para jogar) e receberam o direito ou desígnio de abrirem suas próprias casas de religião. É quando levam todas as suas obrigações para casa. É dito dessas pessoas que se governam.
16  Aqueles que deram quatro-pés para seus pais. Dito de outro modo, são aqueles em cujas cabeças e assentamentos foram sacrificados animais de quatro patas. Passaram por longo período de reclusão, fazendo o chão (ver Anjos, 1995), tempo em que se permanece deitado sobre uma esteira para que o orixá possa comer na cabeça de seu filho. Esses sacrifícios e rituais marcam a fixação do orixá na cabeça e no ocutá (pedra). Além disso, elevam o adepto para a categoria em que está feito por completo, ou como o nome diz, pronto. O ritual é chamado de apronte.
17  Obrigação que envolve sacrifício de aves na cabeça e em obrigações como quartinhas, guias e manteigueiras. Existe, também, o borido de quatro-pés ou o ter angolista na cabeça: grau mais elevado que o borido e menos que o apronte na iniciação, que envolve o corte de galinhas d’angola sobre a cabeça e obrigações.
18  Com obrigações menores, como sanapismo (sacrifício de pombos ou ebis caramujo de Oxalá) e o aribibó (sacrifício de pombos e da ave do orixá de cabeça).





meses; aos outros19, sete dias. Essa conta pode variar de acordo com os laços sanguíneos, com a afinidade e com o tempo de religião que alguém tenha. Assim, por exemplo, alguém que é pronto e o tem os santos em casa, pode levar ao luto de um ano, pelo seu tempo de religião. Como já mencionado, é nessa semana em que Nanã toma conta do egum, que assim como os outros orixás, exige oferendas para trabalhar. Dito isso sobre o luto, podemos passar aos rituais que acontecem no sexto e sétimo dias após a morte.
Na noite que antecede a missa de sétimo dia é realizado o corte para o egum20. Antigamente, o ritual era realizado em um buraco nos fundos




19  As diferenças no ritual de desligamento se devem o somente à hierarquia, mas também ao orixá de cabeça, e por vezes ao cargo ocupado na casa em especial o de tamboreiro (a). Como demonstrou Braga (1998) e Silveira (2008), o tambor é vivo, e se alimenta e se faz junto com seus tamboreiros ou tamboreiras. O tambor também deve ser despachado na kalunga, para que seu dono receba-o de volta das mãos de Nanã Burukê. No caso recente da morte do tamboreiro Adãozinho do Bará, o erú contou com a especificidade de seu cargo e de seu orixá de cabeça. Por todo o trajeto realizado de carro da casa de religião até a kalunga, a cada cruzeiro (sinônimo de encruzilhada aberta) domínio dos Barás o tambor com o couro afrouxado era tocado. Tambor chocho, como se diz. Apesar de não encontrarmos os cargos de ogãn e de ekedi no batuque gaúcho, os tamboreiros(as) ocupam lugar de destaque na religião, o qual se equipara ao dos pais e mães de santo (cf. Braga, 1998; Silveira, 2008).
20  Interessante notar que balé no Xangô de Recife, segundo Halloy (2005), como no batuque gaúcho, é o quarto dos eguns, onde ficam seus assentamentos. Ainda, o autor refere-se ao perigo desse lugar e à obrigatoriedade de se cultuar os eguns antes de qualquer ritual. Corrêa (2006) chama atenção para o perigo do buraco, por isso dele ser geral- mente cercado: Muitas casas de batuque possuem o balé ou buraco, local especialmente dedicado aos eguns e onde os ancestrais de religião do chefe do templo moram sempre fica nos fundos da casa e em local pouco acessível ou até cercado, especialmente se crianças na casa. [...] este (o balé) pode ter conotações e formas diferentes de acordo com o tipo de compromisso que o chefe resolveu assumir com os mortos, além dos objetivos que tem em relação a eles (p. 147-8). Corrêa (1998) descreve a não necessidade de se arrumar a casa que é o balé (casa, geralmente, do tamanho de uma casinha de cachorro ou espécie de caixão), onde se prestam os cultos anuais e que pode ser utilizada para a realização de feitiços (p. 129-130). No Oyó é um buraco que será coberto com terra após os rituais.





da casa, para depois ser coberto com terra, pois no Oyó não se deixa balé21 aberto, ou seja, não se cultua aos mortos. Atualmente, comenta Odacir, com a dificuldade em se adquirir terrenos grandes, as casas possuem pouco espaço nos fundosentão mata-se para o egum em uma talha, quando quem morreu tem cabeça de orixá masculino (Bará, Ogum, Xapanã, Odé, Ossanha, Xangô e Oxalá), e num alguidar, quando a cabeça pertence a orixás femininos (Iemanjá, Oxum, Otim, Obá, Iansã)22.  As talhas e alguidares são, posteriormente, despachados junto com toda a obrigação do morto, ao final do eru, na kalunga23 (o que será tratado adiante).

* * *

Em uma gaiola ou outro espaço previamente preparado estão os animais que serão cortados. Para o início da matança, pedem silêncio, e que os prontos se aproximem,  da ordem do mais antigo na religião ao mais novo. Os não prontos não assistem de perto, olham de longe, por entre os braços e pernas daqueles que estão mais próximos.

21  Nanã Burukê e Ewá o orixás cultuados no lado de Oyó, porém, a elas o se dá cabeça.
Ambas estão ligadas à morte. Ewá é a dona do buraco, diferente de Iansã que é a dona dos eguns e do buraco. Note-se que Otim normalmente o é dona de cabeça e aparece mais como dona do corpo dos filhos de O, com o qual forma o casal perfeito. Contam, contudo, que antigamente  se dava cabeça para essas orixás, e a feitura de Otim e de Ewá foi perdida (com os mais velhos queo ensinaram e faleceram). Nanã Burukê é dona de muitas cabeças, mas suas filhas o dadas para Iemanjá ou para Oxum Dôco. Odacir diz que tal fato se deve a grande responsabilidade que uma filha de Nanã carrega, e que hoje em dia o haveria mais pessoas à altura dessa orixá. Existem outras explicações para tal troca de orixás de cabeça, como o mito sobre a briga de Nanã com Ogum (dono do aço), que faria com que os sacrifícios tivessem de ser feitos com os dentes. Além dessas há outras muitas explicações, mas o fato é que Nanã o fica com a cabeça de suas filhas.
22  Kalunga, aqui, designa o que seria o equivalente a um cemitério para as obrigações: o fundo do mar, território de Nanã Burukê, e suas águas lodosas. No lado de Oyó não se faz a distinção entre Kalunga e Kalunga Grande, nem se refere aos cemitérios como Kalunga.
23  As substâncias podem variar. Sendo, por exemplo, pemba verde, amarela, rosa, azul, branca e preta, sabão da costa e, finalmente, os palitos de dente. Seguindo, é claro, uma ordem de colocação.





A talha, que faz as vezes de buraco, deve ser batizada. Batiza-se com farinha de mandioca e se coloca folha de mamoneira, para que então o axorô (sangue) possa ser ali depositado; junto com ele, a cabeça das aves e do animal de quatro-pés, quando for o caso. O restante do animal vai diretamente para bacias, separadas por orixá, para que depois as inhálas (vísceras e patas) sejam separadas, e as aves depenadas  e preparadas para serem temperadas. É delas que se fará o arroz com galinha, a comida de egum. É importante mencionar que diferente das inhálas de obrigação, que são fritas e refogadas na banha com coloral e outros temperos, as de egum ficam cruas, e têm que ser lavadas para que não estraguem até o dia seguinte, quando são servidas.
Como em qualquer obrigação, inicia-se por Bará24. As cada ave cortada, tempera-se a obrigação com mel e dendê25. Diferente das matanças feitas por motivo de homenagens, quinzenas (corte de aves para o orixá) ou quatro-pés, o corte é rápido. Após a matança, é acesa uma vela branca atrás da talha ou alguidar, com um protetor contra o vento. Ao lado da vela acesa, pacotes de vela branca para que ao final de cada vela se acenda a seguinte. Alguém deve ficar responsável por cuidar da vela e repô-la para que o egum não fique no escuro. Assim deve ser até a hora do eru.



MISSA E ERU


No sétimo dia é encomendada a missa católica, conforme ilustrado no caso de Tia Lurdinha, na qual todos que participam do corte devem ir. Além deles, parentes de santo que não puderam estar na noite anterior



24  Corrêa (2006) apresenta descrição semelhante sobre as substâncias utilizadas antes de se entrar para o café da manhã no dia do desligamento. Fala que o movimento é de passar na palma das mãos aquilo que vai do branco ao preto. A diferença parece consistir no fato de que onde realizou-se trabalho de campo é que a porta de entrada da casa deve ficar bem aberta.
25  Esse vazio representa perigo. O perigo de que alguém que não seja uma pessoa ocupe o lugar (ver Barbosa Neto, 2012, p. 308; Corrêa, 2006, p. 156).





participam da missa. Deve ser a primeira missa da manhã, pois após ela ocorre o importante ritual do café da manhã.
Após a missa, os parentes de santo se reúnem em frente à igreja para irem à casa onde ocorrerá o eru. Na porta de entrada, um filho ou filha dá instruções de como proceder na hora de entrar. Ao lado da porta, um vel contém  cascas de coco, formando pequenos pratos, que o preenchidos por pemba branca, pemba azul, de tijolo, pemba vermelha, cinza e carvão, sabão da costa e palitos de dente26. Ao lado esquerdo, em outro vel, uma bacia de louça de ágata branca com o mieró (preparado de água e ervas) de egum, que leva erva-mate.  Deve-se passar na palma da mão esquerda com os dedos da mão direita cada uma das substâncias contidas nas cascas de coco, na direção que vai da esquerda para a direita, fazendo um rculo até chegar aos palitos. Movimentação que vai da pemba branca ao carvão preto27. Também lavar as mãos com o sabão, dentro da bacia, escolher o número de palitos de acordo com o número de pessoas que residem com quem está juntando os palitos, quebrá-los, e então entrar na casa. Dizem que assim se quebra os laços do morto com os parentes de santo, com suas casas e com as pessoas que moram  nela. Assim o se corre o risco de receber visita inesperada e indesejada do egum.
Ao adentrar a casa se deve dar uma volta ao redor da mesa que está posta para o café da manhã a partir da esquerda até a ponta, onde está sentado o dono da casa. Como de costume em casas de religião, deve-se


26  É importante deixar claro que os orixás não morrem, apenas deixam de vir ao nosso mundo, pois sua ligação maior, a pessoa e o ocutá, deixam de existir em Aiyê. Contudo, os orixás de pessoas que morreram são sempre lembrados e pode-se fazer pedidos a eles, independentemente do tempo que seus filhos humanos tenham morrido. Além do mais, os orixás vivem concomitantemente em Orum, nos ocutás, nas cabeças de seus filhos e nas demais obrigações.
27  Quebrar consiste no ato de uma pessoa ou orixá auxiliar um orixá que acaba de chegar no mundo, tocando-lhe a parte interna dos cotovelos, fazendo com que o orixá dobre os braços de modo a abraçar a si próprio. Além disso, sopram-lhe os ouvidos e tocam em seu peito. Odacir diz que se quebra um orixá para que ele aprenda a ocupar e saber os limites do corpo, pois “[...] o orixá é natureza, é uma força muito forte e pode passar pelo corpo e não ficar”, caso não se faça tal ritual.





abraçar o dono da casa, prostrar-se e beijar-lhe as mãos. Quando alguém termina o café e se levanta, outras pessoas são chamadas para que se sentem para comer, visto que o pode haver lugar vago . Depois de comer é preciso dar outra volta ao redor mesa.
O ritual do café da manhã tem seu término ao meio-dia. Numa das pontas da mesa serve-se o egum. São duas xícaras de café com leite, um martelinho de vinho e outro de cachaça, e um pouco de tudo o que está sobre a mesa. Quem preside o eru esmaga as comidas e as coloca dentro das xícaras, que o entregues para os prontos na religião, que deverão despachar o conteúdo de uma das xícaras e o vinho na frente de casa, e o conteúdo da outra e a cachaça nos fundos. Logo todo o conteúdo da mesa é retirado, dando fim ao ritual.
Entre o café da manhã e o eru, a cozinha não para de funcionar. É lá que preparam as frentes (comidas) dos orixás e as comidas de egum, além do almoço. No final da tarde é que, geralmente, se início ao ritual de desligamento.  Primeiro, todos os presentes comem as comidas de orixás e de egum que passam. De orixás, o acarajé, a pipoca, o amendoim, a canjica, o amalá, o churrasco e a galinha assada da obrigação. De egum, o arroz com galinha. Por vezes é servida, também, galinha ensopada. É preciso comer um pouquinho de tudo. Segundo Odacir, é o único dia em que todos comem e se come a comida de todos, dos vivos, dos orixás e dos eguns. Cuida-se para não deixar nada sobrando nos pratos, pois todas as sobras são depositadas em um recipiente que terá seu conteúdo despachado junto com as coisas do morto, na kalunga.
O eru tem seu início com o dono da casa chamando todos para que entrem na roda, que inicia pelas rezas de Bará. No centro da roda uma toalha de mesa branca é estendida, e é sobre ela que as obrigações serão postas. Deve-se dançar, balançando bastante os braços para frente e para trás. Além disso, as rezas de egum (axexés) são dançadas em sentido horário
contrário ao dançado para os orixás. alternância de rezas, e com ela o sentido da roda.
A não ser quando se trata de eru de um filho/a de Oxalá e de Iemanjá, não se tira reza para esses dois, pois são os velhos. Note-se  que Oxum é um





orixá que transita entre mel e dendê, e algumas oxuns jovens chegam a traba- lhar no cruzeiro com os barás. Mas Oxum Doco, a velha, não participa dos erus. Por conta disso, esses orixás também não chegam nos corpos de seus filhos, a não ser que se trate de eru para esses orixás. Todos os outros orixás (o povo do azeite) podem e devem chegar. A chegada de cada orixá em festas e outros rituais é festejada e saudada com os cumprimentos específicos de cada um. No eru eles chegam gritando de maneira mais intensa, chorando e/ou contorcendo-se. Não saudações, nem festejos, nem cumprimentos ou troca de axé. Os santos chegam para trabalhar e se despedirem de vez de um orixá conhecido .
Na roda de eru o se dança descalço, como nas festas. Ficar descalço é uma obrigatoriedade em quartos de santo nos demais momentos. Os calçados, além de desrespeitosos para com as divindades, bloqueiam o contato da sola dos s com o chão, lugar sagrado de concentração de axé em uma casa de religião. Contudo, no eru, por o se estar homenageando  orixás, mas sim o egum, o se tiram os calçados, e o contato com o chão é mediado por sapatos, sandálias, chinelos etc. Por isso, quando os orixás chegam no mundo, o aos fundos da casa para cumprimentarem o egum e, logo em seguida, os assistentes correm para quebrá-los e tirarem seus calçados e meias. Pois os orixás, mesmo nos erus, o vestem sapatos. Afora isso, o se cumpri- menta o quarto de santo e a rua na parte da frente da casa, como nas festas e outros rituais.
Uma espécie de mesa é posta no chão, forrada com toalha branca. Servem-na com comidas para os orixás e para o egum, e as comidas de gente, como se diz. Deve haver aquilo que o morto mais gostava de comer e beber para quando ele, junto com Nanã Burukê, tiver de juntar os cacos daquilo que tinha na Terra, o passe fome. Que tenha um pouco de tudo o que mais gostava. A comida vai para Orum, quebrada/amassada também. Com ajuda de Nanã Burukê ela será reconstruída,  assim como todo o restante.





DESFAZER


Dos fundos da casa, os orixás trazem as obrigações que ficaram no tempo”: os ocutás, as quartinhas, os pratos e as manteigueiras. Essas devem ser depositadas em sacos de tecido branco. As comidas que estavam sobre a toalha serão unidas às obrigações. Os sacos, cheios, devem ser segurados pelas bordas, de modo a fechá-los, para que, com um porrete de madeira, ao som do alujá (reza tirada para Xangô), tudo possa ser quebrado. A quebra de todas as obrigações é, sem dúvida, o ponto alto de um eru. É nessa ocasião que é dado o verdadeiro adeus ao egum. Pois o enterro foi apenas uma parte da despedida. O eru, dizem, é a saudação definitiva. Depois de tudo quebrado, destruído e desfeito, não mais volta.
Os vínculos estão cortados. Os vivos e o morto se desligam um do outro. É o momento descrito como o mais triste e mais pesado de todo o ritual. Ao som das obrigações que são quebradas a pauladas, orixás que ainda não haviam chegado podem vir ao mundo para se despedir do egum.
As rezas seguem,  o pode haver silêncio,  e é preciso continuar cantando. O choro coletivo é, aos poucos, substituído pela resposta à reza que está sendo tirada. Os orixás que presidem o eru assim exigem. No batuque, dizem que se faz festa até quando se morre. Ao mesmo tempo, os orixás ficam responsáveis por passar comidas,  varas de marmelo e aves que diferem, dependendo de qual santo era a pessoa que faleceu (quando o santo for Oxalá, haverá pombos brancos, por exemplo) nos corpos dos presentes, sejam pessoas ou orixás. Por fim, o ossagéu (aspergir água da quartinha sobre as pessoas), que é utilizado tanto para afastar espíritos e energias ruins quanto para despachar os orixás pelo primeiro motivo sua importância no eru. As isso, as aves, as comidas e as varas de marmelo o quebradas e o para os sacos.
Flores e balas são distribuídas para que cada pessoa e orixá presente deposite nos sacos, como forma de homenagem. Pede-se para que o egum tenha uma partida.  As pessoas e orixás com mais tempo de religião recebem velas, que o acesas dentro dos sacos, de modo a formar uma grande oferenda. Um orixá vem com um espanador feito de TNT nas cores azulão,





amarelo, branco e vermelho, e vai limpando todo mundo que está ali. Depois de limpar todo mundo, apaga as velas com esse espanador28.
Os sacos são fechados e as comidas que restaram nos pratos das pessoas ao longo do dia e foram reservadas são trazidas. A toalha é enrolada e os axós (roupas religiosas) e outras roupas são rasgados. Tudo partirá para a Kalunga. Pessoas e orixás se dividem, Iansãs (de preferência) devem segurar uma das pontas dos sacos, que são embalados ao som de um axexé até os carros que levaram tudo para a praia. Os que ficam na casa cantam para o egum, embalando os braços, num movimento que se assemelha ao tocar/ empurrar para fora. De trás para frente os braços não param de balançar, até que os carros saiam.
Mas o eru ainda não terminou, é preciso que na Kalunga (praia) que em Porto Alegre é feita no Rio Guaíba tudo seja entregue para Nanã Burukê. Quem fica na casa não pode sair até que aqueles que foram à praia voltem. Ao sinal de sua volta, todos ficam em pé, outro axexé é tirado, os orixás se cumprimentam uns aos outros e as pessoas que permaneceram na casa, também. Por fim, trazem um grande alá (pano branco que cobrirá todos os orixás) na qual todos os orixás se agrupam. Com um gole d’água, o orixá mais antigo asperge o chão. Sob o pano e sobre a água, de uma única vez, todos vão embora, sem passar pelo estado de axere. A assistência corre para calçar os sapatos nas pessoas, ainda um tanto aparvalhadas.



RITOS FINAIS


Como referido, três meses após a morte acontece o primeiro corte após o eru. É quando se mata para Bará, pedindo licença ao dono dos cami- nhos para que se possa voltar a realizar feitiços que envolvam a matança de animais. Quando um pronto morre, sua família de santo mais próxima
mãe/pai, irmãos, filhos –, assim como os parentes de sangue que são de religião, não podem/devem cortar até que se complete o ciclo determinado para o luto. Ademais, o ritual dos três meses, como o chamam pois não


28  Essa parte do ritual pode variar. Ao invés de espanar, podem apagar as velas com o ossau.





nome em africano para ele –, é realizado com tudo que a lei manda” (oferendas e rezas). Esse, assim como o de seis meses realizado apenas quando da morte de um pronto –, o de nove e o de um ano realizado apenas quando da morte de babalau ou de uma babalaoa–, fazem parte do segredo da religião, não podendo ser descritos.
Assim como o sétimo dia, o um mês, o três meses, o nove meses e o um ano marcam tempos de prestar mais homenagens e fazer com que o egum se aproxime  cada vez mais de seu orixá. Como Oyó o cultua seus antepassados em balés e nem em cemitérios, a cada um desses rituais afasta-se o morto dos vivos. É importante manter a maior distância possível dos eguns29.
É preciso lembrar que cada ritual desses varia de acordo com o orixá, o tempo de religião e o que se tem na cabeça (sanapismo, aribibó, borido, angolistas, quatro-pés, o se governar e o possuir filhos e filhas de santo”). Assim o sétimo dia de quem possui apenas uma quartinha consistirá em apagar as luzes do quarto de santo e entregar na kalunga o que esse egum tinha de obrigação. Além disso, como mencionado, o carinho que se tinha por determinada pessoa faz com que esse esquema  mais ou menos estruturado sofra modificações. Como quase tudo no Oyó, não existem receitas prontas, existe jogo de búzios e orixás... Mas também existe o que a lei manda”...



CONSIDERAÇÕES FINAIS


Neste artigo busquei dar lugar central ao desfazer, tomando tal conceito como um agrupamento de práticas relacionadas à morte de um adepto do batuque. Como certa vez me disse Odacir do Ogum: “[...] assim como


29  É interessante fazer uma conexão com o estudo sobre religião e mediação de Robbins (2008). O autor demonstra, na esteira de Mauss e Hubert, como os rituais e o sacrifício desempenham o papel não apenas de aproximar pessoas e divindades, mas também de criar distâncias necessárias. Traditional Urapmin religion was less concerned  with creating divine or even inter-human presence and proximity than it was to creating distance between people and between people and the divine by sacrificial and other kinds of mediations (2008, p. 28).





um bom pai de santo tem que saber iniciar, tem que saber terminar. Não pretendo conferir ao texto um caráter conclusivo, mas sugerir que o desfazer nas religiões de matriz africana deva ser tomado como o importante quanto o fazer, e que essa atenção etnográfica possa alargar a discussão sobre a noção de pessoa nessas religiões. No eru, se encontra alto grau de fundamento da religião, haja vista seu alto grau de complexidade, perigo e segredo o que em outros rituais ou na natureza o haja fundamento. Procurei demonstrar que o desligamento o é um passo ritual para outro culto pois no Oyó os eguns o o cultuados. Através da própria descrição do ritual, podemos alargar nossa compreensão sobre as noções de corpo, alma e pessoa nas reli- giões de matriz africana e nas descrições mais gerais feitas sobre as mesmas.
Como a vasta bibliografia sobre as religiosidades de matriz africana no
Rio Grande do Sul (e no Brasil) já demonstrou (ver Bastide, 1978; Goldman,
1984; Corrêa, 2006; Halloy, 2005, para citar alguns), fazer um santo, uma pessoa, uma obrigação ou uma oferenda/presente para os orixás, requer um longo engajamento no aprendizado ritual e dos rituais, além de um crescente acúmulo de objetos e axés e objetos são axés, ou portadores dele que coincide com o grau de poder e plenitude enquanto pessoa religiosa que os adeptos passam e adquirem ao longo de suas vidas.
Guias, quartinhas,  axós, imagens, alás, ocutás, louças, objetos de barro e toda sorte de coisas que compõem as obrigações são adquiridas aos poucos, no tempo dos orixás. A íntima relação que os filhos e filhas de santo cons- troem com seus orixás está diretamente  relacionada a aquisição desses axés. Ao adquiri-los, dizem que a pessoa passa a ficar mais importante, maior. Junto a essa construção de uma relação íntima e cumulativa com divindades e objetos, criam-se e fortalecem-se laços entre pessoas. Um filho de santo será tão mais filho quanto mais axés possuir (axé de faca, de búzios). É claro que essas relações são entrecortadas por muitas outras, como afinidades, laços sanguíneos, etc. No entanto, na hora de desfazer obrigações, é a hierarquia no santo que conta30.




30  Ver Barbosa Neto (2012, p.300).





Desfazer o engajamento de uma vida dedicada à religião requer um saber menos difundido do que o fazer. Dizem que têm muitos pais e mães de santo por que por serem aprontados em pouco tempo, não sabem de quase nada sobre os rituais fúnebres e nem sobre muitos outros. É na hora da morte que aquele que não sabe como proceder pede humildemente auxílio aos mais velhos e, portanto, mais sábios na religião. Como me disseram, é no eru que se encontra o verdadeiro fundamento da religião. Diante de tal importância, é digno de nota que o desfazer não tenha recebido muita atenção na produção antropológica sobre a noção de pessoa nas religiões de matriz africana e na descrição mais geral destas.
Se fazer um santo e aprontar um filho despende tempo, dinheiro, carinho, cuidados e sentimentos,  desfazer suas obrigações e desligar os laços do morto com os vivos requer de forma concentrada a mobilização de emoções e recursos que poderiam ser dispensados ao longo de um período maior de atividades em memória do morto, fazendo com que se inflacione os gastos e o engajamento emocional em um curto período no qual se prepara o eru e os rituais que seguem. Tão importante quanto fazer um filho e um santo, é saber desfazer, desligar, embalar, empacotar e destruir as obrigações para que o egum e o orixá de cabeça possam, com a ajuda de Nanã Burukê, se encontrar em Orum. Desfazer, na Terra (Aiyê), obrigações, é propiciar a sua feitura noutro plano, fazendo a pessoa para uma diferente qualidade de relação com seu orixá e com Orum, dando matéria e ocupação para o início de sua nova vida. Desfazer é, nesse sentido, fazer. É um duplo acontecimento, o desligamento na Terra e a (re)construção em Orum.





REFERÊNCIAS


ANJOS, José Carlos Gomes dos. O corpo nos rituais de batuque. In: LEAL, Ondina Fachel  (org.).  Corpo e significado: ensaios de antropologia social. Porto Alegre: UFRGS, 1995.

BASTIDE, Roger. Estudos afro-brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1973.

            . As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: Pioneira,  1985 (1960).
             . O candomblé da Bahia (rito Nagô). São Paulo: Brasiliana, 1978. BARBOSA NETO, Edgar Rodrigues. A máquina do mundo: variações sobre
o politeísmo em coletivos afro-brasileiros. Rio de Janeiro: PPGAS-MN/UFRJ. (Tese de Doutorado), 2012.

BRAGA, Reginaldo Gil. Batuque jêje-ijexá em Porto Alegre: a música no culto aos orixás. Porto Alegre: Prefeitura Municipal, 1998.

CORRÊA, Norton Figueiredo. Panorama das Religiões Afro-Brasileiras do Rio Grande do Sul. In: ORO, Ari Pedro (org.). As religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS, 1994.

             . O batuque no Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro- rio-grandense. São Luís: Cultura e Arte, 2006 (1992).

            . Sob o signo da ameaça:  conflito,  poder e feitiço  nas religiões afro- brasileiras. São Paulo:  PUC (Tese de Doutorado), 1998.

GOLDMAN, Marcio. A Possessão e a Construção Ritual da Pessoa no Candomblé.
Rio de Janeiro: PPGAS-MN/UFRJ  (Dissertação de Mestrado), 1984.

HALLOY, Arnaud. Dans lIntimité des Orixás. Corps, Rituel et Apprentissage Religieux dans une Famille-de-Saint  de Recife, Brésil. Bruxelles/Paris:  ULB/ EHESS. (Tese de Doutorado), 2005.

HERSKOVITS, Melville J. The Southermost Outpost  of New World
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ORO, Ari Pedro. (org.). As religiões afro-brasileiras  do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: UFRGS, 1994.

            . Axé Mercosul: as religiões afro-brasileiras nos países do Prata. Petró- polis: Vozes, 1999.

            . Religiões afro-brasileiras do Rio Grande do Sul: passado e presente.
Estudos Afro-asiáticos vol. 24, n. 2, Rio de Janeiro, p. 345-384, 2002.

LVORA, Jacqueline Brito. A sagração do cotidiano: estudo de sociabili- dade em um grupo de batuqueiros de Porto Alegre/RS. Porto Alegre: PPGAS/ UFRGS. (Dissertação de Mestrado) 1994.

ROBBINS, Joel. Keeping Gods Distance: Sacrifice,  Possession and the Problem of the Divine Relationship. Palestra proferida no PPGAS/MN em 2008.


SILVEIRA, Ana Paula Lima. Batuque de mulheres: aprontando tamboreiras de nação nas terreiras de Pelotas  e Rio Grande, RS. Porto Alegre: PPGAS/ UFRGS. (Dissertação de Mestrado), 2008.
Fundamentos da Quartinha

O batuque tem sua ritualística própria e dentro das suas peculiaridades está o ritual das Quartinhas.
Ao chegar num ilê é muito comum avistar na entrada, sobre o piso ou sobre o portal da entrada, uma QUARTINHA, que significa que o espaço é  Sagrado e tem a faculdade de mostrar à primeira vista que se trata de um local de ritual religioso.
O termo QUARTINHA se refere a um recipiente de barro, usado para acondicionar líquidos com capacidade de 250 ml a meio litro.  É um dos utensílios indispensáveis nos cultos afro-brasileiros, sendo usado na maioria dos assentamentos e na obtenção dos AXÉS.
Existe um costume praticamente esquecido pela maioria dos Ilês, pelo qual, quando o filho da casa ou um visitante chega ao Ilê, se despacha a água da QUARTINHA e coloca-se água nova na mesma.  Com essa ação, entende-se que a água está transmutando as energias, dando uma purificação ao ato.
Antigamente, as quartinhas eram de barro, pois a lou­ça era um artigo raro e caro, ina­cessível às classes menos favorecidas. Panelas, vasos, tigelas, canecos, e ou­­tros utensílios feitos de bar­­ro cozido, eram comuns e de uso cotidiano, não só pe­­los in­dígenas, uma vez que os co­­lo­­nizadores mais po­bres tam­bém usa­vam uten­sílios de bar­ro cozido. Eram os vasi­lhames e uten­sílios mais po­pulares e mais baratos na­quela época.
Hoje, quando você tem os mesmos utensílios em lou­ça, pode usá-los à vontade. Até porque as quartinhas de barro precisam passar por um envernizamento externo e por um revestimento oleoso in­terno, para que a água ou outra bebida colocada dentro dela não seja absorvida pelo barro e, sob temperaturas elevadas, evapore completamente.
A importância da água: é um fator preponderante no batuque. A água tem o poder de absorver, acumular ou descarregar qualquer vibração, seja benéfica ou maléfica.
A água poderá concentrar uma vibração positiva ou negativa, dependendo do seu emprego. Ao se rezar para uma pessoa com um copo de água do lado, todo o malefício, toda a vibração negativa dela passará para a água do copo, tornando-a embaciada; caso não haja mal algum, a água fica fluidificada. Nunca se deve acender vela para o Anjo da Guarda sem ter um copo de água do lado.
A água que se apanha na cachoeira é água batida nas pedras, nas quais vibra, crepita e livra-se de todas as impurezas, assim como a água do mar, batida contra as rochas e as areias da praia, também acontece o mesmo, por isso nunca se apanha água do mar quando o mesmo está sem ondas.
A água da chuva, quando cai é benéfica, pura, depois de cair no chão, torna-se pesada, pois, atrai as vibrações negativas do local. A importância da água pode ser traduzida numa única palavra: “VIDA”!
As águas utilizadas para descarrego, têm fundamento parecido com a fumaça, sendo que a fumaça carrega as energias consigo similar ao vento, e a água absorve estas energias.
As águas em copos nas obrigações significam energia vital, e nos copos juntos às velas de Anjo da Guarda ou atrás das portas de entrada, têm a finalidade de atrair para si as energias que por ali passam, atraídas pela Luz ou passando pela porta. Os copos de águas utilizados para estes fins (Anjo da guarda ou atrás das portas) devem ser descarregados pelo menos de 7 em 7 dias, pois senão fiarão saturadas e perderão seu poder de absorção. Esta descarga deve ser feita em água corrente (na pia com a torneira aberta, por exemplo). Pois simboliza movimento, necessário para transportar as energias absorvidas por ela.
No batuque, a água é um dos elementos naturais mais receptivos com uma energia altamente condutora, ela é utilizada nas quartinhas, no batismo, em muitos rituais da nação e principalmente pelos  orixás nos momentos onde há necessidade de realizar grande limpeza, purificação e energização de nosso corpo  astral e de nossa casa, afinal existem cargas e  energias maléficas que somente esse elemento natural é capaz de desfazer, limpar e equilibrar.
Ao desincorporar um ORIXÁ, a água da QUARTINHA proporcionará ao médium uma calma salutar após o transe espiritual.
As QUARTINHAS servem de imã espiritual para o médium, tanto o lado bom ou ruim que lhe desejam ou que assimila durante os trabalhos, nas giras ou simplesmente no que acontece diariamente.  Todos os fluidos são absorvidos pelas energias constantes da água contida nas QUARTINHAS.
Uma quartinha é algo pessoal e não deve ser manipulado por mais ninguém além do seu dono e só de­ve conter suas vi­bra­ções. Deve se cuidar da quartinha como se cuida da própria alma. É como se fosse sua essência e tivesse um pouquinho da  essência  da sua alma.





SIMPATIA PARA ACABAR COM O CIÚME


MATERIAL:

01 Quartinha branca;
01 Folha de laranjeira;
01 Vela branca;
Água;
Mel;


Nome da pessoa;
Coloque os ingredientes dentro da quartinha, ao lado acenda uma vela e faça seu pedido ao orixá Oxalá, após a vela queimar guarde a quartinha em um lugar alto na sua casa. Quando notar que a pessoa está mais calma despache na beira do rio ou na praia.



quarta-feira, 12 de agosto de 2015


Òbàrú é o General dos Exércitos de Sàngó. É o Guerreiro que faz emboscada em Sòbòàdàn.
Barú é uma qualidade de Xangô arredia e agressiva. Representa o lado guerreiro, conquistador, o aspecto da liberdade real e potencial bélico dos reis.
Ele sendo o General dos Exércitos do Òbà ( Rei ) ele possui assim como Àìyrá o Titulo de Òbà Kànkànfò.
Ligado ao elemento fogo sobre fogo, à vida, ao dinamismo e ao prosseguimento espiritual e material.
Considerado um caminho de Xangô extremamente raro, jovem, quente, impulsivo, intimamente ligado à Ogum Mèjè e a Exú.
Responde nos Odus: 12 (Ejilaxeborá), 1 (Okanran), 6 (Obará) centralmente, 11 (Owárin), 3 (Etaogundá). Todos os odús com ligações com Xangô, Exu e Ogum.
É um orixá que deve ser muito apurado para se apresentar num jogo, por isso facilmente confundido com Ogum e Exú.
Este Xangô somente aceita se cooligar com Ogum Mèjè, devido à não haverem choques de energia entre os dois e algumas afinidades entre estes dois orixás, e comumente se vêem pessoas ori meji de Barú e Mèjè, e estes dois orixás caminham juntos.
Diz-se em muitos Axés que Barú é o Xangô mais difícil de se fazer em Yawò. Por isso quando ele se apresenta, a maioria dos zeladores costumam fazer uma outra qualidade de Xangô ou Ogum.
Na África ficou conhecido como “Doido” porque durante seu reinado teve algumas decisões controversas e impensadas, motivo pelo qual na África não se raspa nem se assenta esse Orixá.
Na maioria das tradições ele veste preto com marrom, ou marrom e branco. Em outras veste chumbo e preto e costuma se colocar também pêssego e vinho para apaziguá-lo. Ele usa muito veludo. Pode carregar bastante dourado, mas pôr cobre nele também não influencia.
Este rei abdicou da coroa para se tornar um cavaleiro, por isso ele não usa coroa e sim capacete. Carrega apenas um oxê normal, e outro com a ponta numa espécie de foice.
Suas contas são um mistério, pois algumas casas usam o vermelho e o branco e outras usam o marrom, outras marrom e branco, sendo que algumas outras ainda intercalam as marrons com contas pretas (12 marrons e 1 preta).
Não come amalá nem quiabo, alimentos estes que são ewó central seu e dos filhos, mas recebe todas as outras comidas consagradas à Xangô. Também carregam as outras quizilas de Xangô como a morte, sujeira, esmola, tecidos de ráfia e juta, entre outros.
Seu animais sacrificiais são: cabrito, jabutí, galo de briga, etun e um em especial: o gavião.
Seu animal símbolo é o leão.
Está ligado a Yemanjá em Tapá, Exú e Oyá Topé.
Em outras tradições ele caminha com Opará.
Barú detesta injustiça e defende os certos, porém não tolera erros, se livra de todos seus inimigos de uma vez para não voltarem a cometer o mesmo erro.
UMA OUTRA VERSÃO:
Segundo outros asés, Barù tem ligações com Iroko e come com Èxu.
Dependendo da época este orixá ora é Baru, ora é Iroko.
Tem caminhos com Oyá Yàtopè.
Responde no Odu 12 Ejilaxeborá.
Durante as guerras e as conquistas era temível e sanguinário: não fazia prisioneiros, matava todos.

MITOLOGIA DE BARÙ
1. Porque Barú não come quiabo
Baru era muito brigão. Só vivia em atrito com os outros. Ele é que era o valente. Quem resolvia tudo era ele...
Baru era muito destemido, mas, quando ele comia quiabo, que ele gostava muito, lhe dava muita sonolência. Dormia o tempo todo! E pôr isso perdeu muitas contendas, pois quando ele acordava, já tudo tinha acabado.
Então, resolveu consultar um oluô, que lhe disse:
- Se é assim, deixa de comer quiabo.
- Eu deixar de comer o que eu mais gosto? – respondeu Xangô Baru.
- Então, fique por sua conta. Não me incomode mais! Será que a gula vai vencê- lo? – perguntou o oluô. Baru foi para casa e pensou :
- Eu não vou me deixar vencer pela boca. Vou voltar lá e perguntar a ele o que faço, pois o quiabo é meu prato predileto.
E saiu no caminho da casa do oluô, que já sabia que ele voltaria. Lá chegando, disse:
- Aqui estou. Me diz o que eu vou comer no lugar do quiabo.
- Aqui neste mocó tem o que você tem que comer. São estas folhas. Você temperando como quiabo, mata sua fome – lhe mostrou o oluô.
- Folha?! – perguntou Baru.
- Sim – respondeu o oluô – Tem duas qualidades, uma se chama oyó e a outra, sanã. São tão boas e gostosas quanto o quiabo.
Baru foi para casa e preparou o refogado, e fez um angu de farinha e comeu. Gostou tanto, e se sentiu tão bem e tão fortalecido, e não teve mais aquele sono profundo.
Aliás, ele se sentiu bem mais jovem e com mais força.
E não ficou com a sonolência que o quiabo lhe dava.
Aí ele disse:
- A partir de hoje, eu não como mais quiabo.
Daí a sua quizila com o mesmo.
2.
Conta o mito em que Xangô recebe de Oxalá um cavalo branco como presente.
Com o passar do tempo, Oxalá voltou ao reino de Xangô Baru, onde foi aprisionado, passando sete anos num calabouço.
Calado no seu sofrimento, Oxalá provocou a infertilidade da terra e das mulheres do reino de Baru.
Mas Baru, com a ajuda dos babalawos, descobriu seu pai Oxalá preso no calabouço de seu palácio.
Naquele dia, ele mesmo e seu povo vestiram-se de branco e pediram perdão ao grande orixá da criação, terminando o ato com muita festa e com o retorno de Oxalá a seu reino.
Neste avatar, e somente neste, Xangô surge como um rei humilde e solidário com a causa de seu povo.
ARQUÉTIPOS, CARACTERÍSTICAS GERAIS E TENDÊNCIAS DOS FILHOS DE BARÙ
Seus descendentes míticos agirão sempre como um jovem desconfiado, ambicioso, elegante, teimoso, hospitaleiro, galante.
Seus filhos são tidos como grandes conquistadores fortemente atraídos pelo sexo e o relacionamento predominantemente sexual assume papel importante em sua vida.
Honestos e sinceros em seus relacionamentos mais duradouros, para eles sexo é algo vital, insubstituível, mas o objeto sexual em si não é merecedor de tanta atenção depois de satisfeito o desejo.
Donos de uma enorme auto-estima,têm uma clara consciência de que são importantes e dignos de respeito e atenção. Acreditam que sua opinião será decisiva sobre quase todos os tópicos, consciência um pouco egocêntrica, mas de uma naturalidade desconcertante.
Não aceitam muito as opiniões alheias e acham que podem resolver todos seus problemas sozinho, tem momentos calmos, mas de repente se tomam por uma fúria incontrolável.
Vezes quietos e não ligam pra opinião alheia, mas outras vezes se enfurecem e dizem o que não querem ouvir.
Não aceita injustiça e se cega diante das paixões duradouras e passageiras, são bons mas não se prendem totalmente a alguém o que pode parecer que não está “nem aí”.
São risonhos, amantes da boa comida e boa bebida, e brincalhões (pois possuem uma ligação com Exú muito forte).
Gostam de exercer a autoridade e não podem ser contrariados. Possuem grande senso para a justiça e defendem os certos.
Extremamente enérgicos e autoritários, gostam de exercer influência nas pessoas e dominar a todos, são líderes por natureza, justos honestos e equilibrados, porém quando contrariados, ficam possuídos de ira violenta e incontrolável.
Suas características físicas são de alguém forte e geralmente inofensivo, mas são dotados de força moral e vezes grande energia corporal, onde passam impõem silêncio e respeito, mas logo se mostram amigos e brincalhões.
Falam grosso e seu jeito meio curvado os coloca em posição de destaque.
Assim como Xangô, gostam de exercer a liderança e o controle, quando isso não é possível, os filhos de Barú logo se sentem diminuídos e fracos.
Sendo para eles o combustível o sexo e tudo que se relaciona a esse tema.
Contam vantagem, mas quase sempre suas histórias são verdadeiras.
Suas carreiras mais promissoras são: juízes, advogados e defensores, dentistas, médicos, tatuador e vendedor, têm aptidão para os negócios e marketing, pois são bons influenciadores de opinião.